Quem importa ou exporta por mar está sentindo três coisas ao mesmo tempo: o frete subiu, ficou difícil conseguir espaço no navio e alguns portos estão com fila. As três têm causas diferentes, e entender cada uma ajuda a decidir melhor na hora de cotar, embarcar e prometer prazo ao cliente.

Antes de ler: não existe índice público confiável de frete marítimo para as rotas do Brasil em outubro. Os valores que aparecem abaixo vêm de índices globais, avisos oficiais de armadores e relatórios de agentes de carga, e cada um está identificado. Para a sua carga, o número que vale é o da cotação por rota. Este artigo complementa o panorama de fretes publicado em 22 de outubro.

O que está empurrando o frete para cima

1. Combustível e a guerra no Oriente Médio

A guerra entre Estados Unidos/Israel e o Irã começou em 28 de fevereiro de 2026, e o Estreito de Ormuz está praticamente fechado desde março. O petróleo ficou mais caro, e o combustível é um dos maiores custos de um navio. A CMA CGM afirma, em aviso a clientes de 22 de setembro, que o petróleo Brent está acima de US$ 100 desde o início do mês. Essa cifra é do armador e não foi confirmada por fonte independente.

O efeito chega ao embarcador em forma de sobretaxa. A Seaboard, por exemplo, aumentou em US$ 25 por contêiner de 20' e US$ 50 por 40' em rotas fora dos Estados Unidos a partir de 4 de outubro. No transporte aéreo, a IATA registrou o querosene 121% mais caro que um ano antes em abril e 76% mais caro até 31 de julho, o que se reflete nas sobretaxas de combustível.

2. Menos navios e menos escalas para a América do Sul

Armadores cancelam viagens (os chamados blank sailings) para sustentar o preço. Relatórios de mercado apontam ao menos quatro a seis cancelamentos na rota Ásia–costa leste da América do Sul em setembro, cerca de 14% a 15% da capacidade, e omissão de escalas em Xangai e Ningbo em outubro. Além disso, ZIM e ONE encerraram o serviço compartilhado entre o Golfo dos EUA e o Brasil. A rede ficou menos densa, e quem perde um embarque tem menos alternativas.

3. Sobretaxas de alta temporada e reajustes

A CMA CGM e a Hapag-Lloyd anunciaram reajuste (GRI) de US$ 1.000 por contêiner para as cargas da Ásia para a costa leste da América do Sul, com vigência a partir de 15 de outubro. Para o fim do ano, há sobretaxas de temporada nas saídas do Brasil, como as da Hapag-Lloyd (US$ 500 por 20' e US$ 1.000 por 40', de 5 de novembro a 4 de dezembro, em contratos de longo prazo, para destinos como Estados Unidos e Caribe). A imprensa especializada também reporta que a CMA CGM cobrará US$ 700 por 20' e US$ 900 por 40' nas cargas do Brasil para a Europa e o Oriente Médio a partir de 15 de novembro. Esse último valor foi noticiado, mas o aviso original do armador não foi confirmado por nós.

4. Regras ambientais na Europa

Quem exporta para a União Europeia convive com o custo do carbono. O EU ETS, que cobra pelas emissões dos navios, passou a valer para 100% das emissões de 2026, e a Maersk, por exemplo, aplica uma sobretaxa de emissões em cargas com porto na região. A regra global da IMO ainda não foi adotada, então não há cobrança dela nos fretes hoje.

5. Tarifas dos EUA e mudança no comércio

Desde 22 de julho, os Estados Unidos aplicam tarifa de 25% sobre parte dos produtos brasileiros, com exceções como café, carne e aeronaves civis. Segundo dados do setor, as exportações brasileiras em contêiner para os EUA caíram 15,6% até agosto, enquanto as para a China subiram 14,4%. Menos carga e menos serviços diretos para os EUA, mais carga para a Ásia: o mapa de demanda mudou.

6. Câmbio

O dólar caiu de R$ 5,22 (PTAX de 2 de outubro) para R$ 4,99 (5 de outubro). Um frete de US$ 10 mil custava R$ 52.238 no primeiro dia e R$ 49.698 poucos dias depois. Não muda o frete em dólar, mas muda o custo em reais para quem importa, e o quanto sobra de margem para quem exporta.

Importação: pico em setembro, reajustes à frente

O índice SCFI para o trecho Extremo Oriente–Santos, segundo relato da imprensa de logística, chegou a US$ 9.616 por contêiner de 40' em 4 de setembro e recuou para US$ 7.942 em 18 de setembro. A Platts apontou queda de 9,8% na semana até 18 de setembro. Em outubro, relatórios de agentes de carga trazem valores muito diferentes entre si, de cerca de US$ 5.500 a US$ 9.000 por 40', conforme a fonte e a base de cálculo (com ou sem sobretaxas). Por isso, tratamos esses números como referência, e não como preço de mercado.

O que é firme: o reajuste de US$ 1.000 anunciado para 15 de outubro e a expectativa de novas sobretaxas para novembro. Em rotas globais, como Ásia–Europa, o preço vem oscilando, com sinais de queda para 2027, mas isso não se confirmou ainda para as rotas brasileiras.

Exportação: o problema é achar espaço e contêiner

Para o exportador, o preço do frete tem sido menos crítico do que conseguir embarcar:

  • Contêiner vazio: relatórios apontam falta de unidades aptas para alimentos, principalmente 40' HC e 20' DC, em Santos e no Rio de Janeiro (Navicon, 7 de outubro; StoneX, 24 de setembro).
  • Cargas rolando: segundo o Cecafé, no café "muitas cargas estão rolando de um mês para o outro". Santos responde por 70,7% do café exportado até setembro.
  • Safra recorde: a Conab projeta exportação de soja de 117,97 milhões de toneladas (+1,5%) e de milho de 46 milhões (+4,8%) em 2026/27. A pressão por espaço tende a continuar no fim do ano.
  • Menos serviços para os EUA: com o fim do serviço compartilhado EUA Golfo–Brasil e as tarifas, há menos escalas diretas.

Uma informação útil: segundo reportagem do Poder360, a Antaq já entendeu que o exportador não deve pagar detention (taxa de uso do contêiner) quando é o armador quem decide rolar a carga. Vale conferir a situação do seu caso com o seu agente de carga antes de contestar uma cobrança.

Portos: onde está a fila e por quê

PortoO que foi registradoCausa apontada
Itajaí Espera mediana para atracar de 0,85 para 1,21 dia (4 a 10 de outubro, Portcast). Canal restringido pela Marinha em 2 e 3 de setembro e reaberto em 2 de outubro com seis manobras por dia. Assoreamento do Rio Itajaí-Açu. A dragagem de manutenção foi interrompida em fevereiro.
Navegantes Espera mediana de 2,43 dias (Portcast); navios fundeados por cerca de 5 dias em média (Kuehne+Nagel, 30/9 a 6/10). Pátio da Portonave com 78% de ocupação. Mesmo problema do canal; cada interrupção forma fila.
Santos Mediana de 0,52 dia (Portcast); cerca de 1,45 dia pela Kuehne+Nagel (20/10); 3,4 dias em 14/10 (Everstream). A autoridade portuária diz que não há fila preocupante. Pico de safra, clima, concentração de atracações. Filas maiores em granéis e fertilizantes.
Paranaguá Espera baixa para contêineres (0,17 dia, Portcast). Nova regra de atracação do berço 201, para granéis, esteve em consulta pública até 21 de outubro. A revisão é para exportação de granéis, não para contêineres.

Por que os números divergem? Cada fonte mede uma coisa: a mediana de espera para atracar, a média de tempo fundeado, um terminal ou o complexo inteiro. Por isso, em Santos a mesma semana pode aparecer como menos de um dia ou como mais de três. O que importa é como isso atinge a sua carga: um navio que perde a janela de atracação leva de 2 a 3 dias para entrar, segundo a Sindamar, e o custo do navio parado pode chegar a US$ 60 mil a US$ 100 mil por dia.

Na prática, o tempo no fundeio atrasa a chegada da mercadoria à fábrica e o registro da DI, e na exportação aumenta o risco de rolagem. A espera no fundeio, em geral, não consome o free time do contêiner, mas confirme as condições no seu contrato.

O que fazer na sua operação

  1. Cote por rota e por porto, com sobretaxas e taxas de destino detalhadas. Compare o custo total da carga entregue.
  2. Pergunte pelas datas dos reajustes. GRI de 15 de outubro, sobretaxas de temporada de novembro: saiba quais já estão na sua cotação.
  3. Garanta o espaço antes do preço. Na exportação, confirme a reserva (booking), a data-limite de entrega (cut-off) e o plano caso a carga seja rolada.
  4. Peça o contêiner e a data de retirada com antecedência, principalmente 40' HC e 20' DC para alimentos.
  5. Tenha um plano B de porto. Combine com o agente quem paga a remoção e a sobrestadia se a carga for descarregada em outro porto.
  6. Revise o free time e as condições de detention do contrato de frete.
  7. Mantenha estoque de segurança nas rotas e portos com histórico de fila, em especial no Sul.
  8. Defina quem assume o risco do câmbio: cotação em dólar transfere o risco ao importador; cotação em reais, ao agente.

Como a Arpex BR pode ajudar

A equipe da Arpex BR analisa cada operação e apoia a cotação por rota, com as condições acima detalhadas. Coordenamos transporte marítimo FCL e LCL, transporte aéreo, desembaraço aduaneiro e seguro de carga, com atendimento personalizado desde 2015. Se você quer revisar uma proposta de frete ou planejar um embarque para o fim do ano, fale com a nossa equipe. A resposta comercial sai em até 24 horas.

Fontes

Este artigo tem caráter informativo e reflete as informações públicas disponíveis em 23 de outubro de 2026. Valores, sobretaxas e prazos mudam rápido; confirme os detalhes da sua operação com a nossa equipe antes de tomar decisões.